terça-feira, 1 de novembro de 2011

woody allen e paris




Midnight in Paris

estreia 17 06 2011

gênero comédia / fantasia / história

EUA/Espanha, 100 min, 12 anos.

Distribuição Paris filmes

Direção Woody Allen

Com Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams

Saudosista, nostálgico, passadista, oldfashioned, tradicionalista e assim por diante, todas essas qualificações se aplicam a Woody Allen − tanto à sua produção cinematográfica quanto ao seu gosto pessoal. Todos sabem que ele prefere Nova York a Los Angeles, mas, e quanto a Paris? Qual delas teria sido a que o autor de (“Manhattan” - 1979) elegeu para mais esta tentativa de filmar em uma metrópole, tratando-a ao mesmo tempo como ambiente e personagem do roteiro. Logo no início de “Meia-Noite em Paris” ele declara seu encantamento para com a cidade, investindo mais de cinco minutos num documentário, quase uma reportagem sobre a cidade tal como é hoje em dia − uma suntuosa sequencia de imagens quase fixas, nas quais se misturam paisagens típicas de cartão postal com enquadramentos inéditos e inesperados.Assim que a cena começa, entretanto, por intermédio de seu alter ego da vez − Owen Wilson, no papel de Gil Pender, um roteirista de Hollywood em viagem de turismo com a noiva (Rachel McAdams) – Allen questiona “imagine como seria este lugar nos anos de 1920”. Ou seja, naquele tempo a cidade das luzes devia ser ainda melhor para ele, porque abrigava figuras centrais de seu panteão particular, como Scott Fitzgerald, Cole Porter e Ernst Hemingway – não por acaso todos americanos. Imitando o modo de falar e gesticular do próprio diretor, esse personagem encontra por acaso um portal que se abre para o passado sempre à meia noite. E assim viaja de fato para um ponto qualquer daquela “década de ouro”, sendo apresentado para Pablo Picasso e sua amiga, a também americana Gertrude Stein (Kathy Bates). Mostra para ela os originais do romance que está escrevendo, antes de passá-lo ao próprio Hemingway, em busca de um palpite. Como esses dois brigaram em 1927, pode-se deduzir que a cena se ambienta em algum momento anterior. Na casa da escritora na Rua Fleurus, Gil fica fascinado por Adriana (Marion Cotillard) que, assim como ele, é obcecada pelo passado parisiense, no caso a “belle époque” de Toulouse Lautrec e Dègas. A moça seria uma discípula de Coco Chanel e fora namorada de Modigliani e também de Picasso.

Ela se afasta ao saber que o rapaz está noivo, mas, ao retornar a 2010, num “bouquiniste” às margens do Sena, Gil acha um livro de memórias que Adriana teria publicado. Ao lê-lo, ou melhor, ao pedir a uma guia de turismo (Carla Bruni) para traduzi-lo, ele fica sabendo se a beldade de 1927 gostava dele ou não. Temos, portanto, o livro como objeto mágico que serve de chave para viajar no tempo – peça fundamental nessa saga do personagem em busca de sua verdade mais íntima, isto é, do tesouro que constitui o seu ser em estado primordial. Colocando de outro modo, Woody Allen cria um personagem para representar ele mesmo enquanto redige um texto autobiográfico e atravessa o oceano e as décadas para submetê-lo à apreciação de seus ícones intelectuais antes de publicá-lo. Trata-se, portanto, de uma intrincada operação ficcional que permite ao narrador locomover-se no tempo e no espaço sem tirar os pés de casa. Uma idéia que só o talento de Allen seria capaz de colocar num espetáculo, aparentemente leve e humorístico como este, capaz até de atrair o grande o público.Woody Allen que, neste filme, trabalha com uma fórmula igualmente mágica ao permitir que seu herói (um redator-operário de cinema que quer se dedicar à alta literatura), penetre por uma fissura temporal e conviva com os ídolos de sua formação estética, em plena Paris dos anos de 1920: Fitzgerald, Porter, Picasso, Stein, Hemingway – por ordem de entrada em cena e puxando uma longa fila de celebridades na qual se destacam T. S. Elliot, Salvador Dali, Man Ray e o cineasta Luis Buñuel. Para este (afinal um colega de profissão), o personagem/autor oferece a idéia para um filme: um grupo de pessoas fúteis e elegantes se acha reunido num jantar, mas, quando termina a festa, ninguém consegue sair do local e, aos poucos, todos acabam se comportando como animais. Trata-se do enredo de “O Anjo Exterminador” que o diretor espanhol filmaria em 1962. O livro que Gil Pender carrega enquanto escreve é simultaneamente o seu tesouro e a chave para ultrapassar a porta que o prende à vazia futilidade em que vive. Temos, então, o mesmo estratagema “meta-fictício” de John Barth, resumido nas “palavras mágicas” que Sherazade pronunciara antes de romper os diques do tempo: “a chave para o tesouro é o próprio tesouro”.
fonte:blog cinema falado

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